31 de out de 2006

gozador




para que serve o gozo?
o gozo não serve.
nós o servimos, nos servimos.
somos gozados.

hermética madrugada

madrugada escura.
na tela cheia de letra
a palavra perdeu o caminho
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na tela
os quadrados em branco se sobrepõem.
fazem tela pacientes.
quem sabe a palavra vem?

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24 de out de 2006

Será?


salvador dali - A metamorfose de Narciso
Algo de mentira.
Algo de verdade?
quando?
quanto?
sei lá.

22 de out de 2006

E naquela sala qualquer tempo seria pouco. Mas suficiente para o encanto.

1º Salão do Livro de Ipatinga
ANTONIO TORRES
Antônio Torres nasceu no dia 13 de setembro de 1940 num lugarejo chamado Junco (hoje município de Sátiro Dias), na Bahia. Aos 20 anos, em São Paulo, foi chefe de reportagem de esportes do jornal "Última Hora". Redator de publicidade desde 1963, trabalhou em algumas das principais agências do País, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sua estréia literária se deu com o romance "Um Cão Uivando nas Trevas", publicado em 1972. Em seguida, viria a publicar mais quatro romances: "Os Homens dos Pés Redondos" (1973), "Essa Terra" (1976), "Carta ao Bispo" (1979), "Adeus, Velho" (1981), "Um Táxi para Viena D´Áustria" (1991), "Balada da Infância Perdida" (1996), "O Cachorro e o Lobo" (1997) e "Meu Querido Canibal" (2000), entre outros. Pelo conjunto de sua obra, foi agraciado com o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 2000.
http://www.releituras.com/antoniotorres_menu.asp




MARÇAL AQUINO
Marçal Aquino nasceu em 1958 na cidade de Amparo (SP). Jornalista, trabalhou como revisor, repórter e redator nos jornais “O Estado de S.Paulo” e “Jornal da Tarde”. Atualmente, trabalha como jornalista free-lancer. Escreve ficção adulta e juvenil, faz roteiros para o cinema, tendo atuado como consultor no IV Laboratório de Roteiros Sundance/RioFilme, a convite do Sundance Institute, dos E.U.A., em 2002.Alguns dos trabalhos do autor:Prosa:O invasor.Faroestes.O amor e outros objetos pontiagudos(Prêmio Jabuti 2000).As fomes de Setembro (Prêmio V Bienal Nestlé de Literatura – Conto (1991).Miss Danúbio(Prêmio do Concurso de Contos do Paraná).Cabeça a prêmio.Famílias terrivelmente felizes.Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábiosPoesia:Abismos – Modo de usar.Por bares nunca antes naufragados.Juvenis:O mistério da cidade-fantasma.O jogo do camaleão.O primeiro amor e outros perigos.A turma da rua Quinze.Coleção Sete Faces.Roteiros de cinema:Os matadores.Ação entre amigos.O invasor.Nina.

http://www.releituras.com/maquino_menu.asp

NOEL ROSA CANTADO POR MISTURA FINA

21 de out de 2006

Marcelo Ferrari: Não leia poesia


Conhecem a metáfora da vaquinha? Pra quem ainda não conhece, preciso contar (resumidamente). Um sábio e seu discípulo, procurando um lugar pra dormir no meio da noite, foram recebidos pelos moradores de um casebre. "Com vocês vivem aqui se não há plantação?", perguntou o sábio ao pai da família. O homem respondeu: “Nós temos uma vaquinha e com o leite fazemos queijo e manteiga". No dia seguinte, o sábio e o discípulo agradeceram a hospitalidade e seguiram viagem. Quando se distanciaram muitos metros da casa, avistaram a vaquinha pastando ao lado de um precipício. O sábio se aproximou e chutou a vaquinha no abismo. O discípulo ficou inconformado, mas o sábio não disse nada, prosseguiu em silencio. Passados alguns anos, o discípulo voltou pra ajudar aquela família que havia sido tão hospitaleira. Qual não foi seu espanto ao ver o barraco transformado numa deslumbrante casa de fazenda. Ao reencontrar o pai da família, perguntou o que havia acontecido, ele respondeu: “Naquele mesmo dia em que vocês foram embora, nossa vaquinha caiu no precipício. Pra sobrevivermos, começamos a plantar. Primeiro plantamos legumes, depois frutas, depois cereais e olha só tamanho da lavoura. Nunca tínhamos nos dado conta de como a terra aqui é fértil.”Mas porque contei esta história? Porque leitores práticos, geralmente discípulos da eficiência 9000, conhecem esta história da vaquinha e costumam me perguntar pra que serve a poesia. Eu poderia virar as costas, como fez o Cristo, ou então, dizer que serve pra nada, ou melhor, pra nadar, uma vez que sem o vazio não há eficiência no mundo capaz de encher um copo cheio. Mas, como na prática dos práticos, nada é nada e não enche nada, só enche o saco, eu inventei este jeito poético de chamar a criatividade de “erro”. A poesia entra nesse fenômeno: na capacidade humana de errar. Assim, minha resposta é: um poema é um texto errante e um texto errante serve pra chutar a vaquinha do leitor.Arremessar no abismo as estruturas arcaicas de nossas sinapses, é o grande crime de um texto errante. Ele não tem a missão de nos ensinar o bê-á-bá das coisas, nem de nós dar o leite convencional pra fazermos manteiga, o objetivo de um texto errante é declaradamente destruidor e fora da lei. É por isto que os rotulamos de filosofia-que-não-enche-barriga, poesia-inútil, literatura-que-não-é-realidade e os aprisionamos nas prateleiras das casas e bibliotecas. Alguma vez você já foi ao dentista e encontrou um livro da Clarisse Lispector, do Carlos Drummond ou do Fernando Pessoa na sala de espera? E se encontrasse, pegaria ele ou o jornal? Texto errante não vai ao dentista, ao escritório, e, atualmente, nem mesmo a escola. Texto errante é textona-no-grata.Pra “aparente” infelicidade dos leitores práticos, um texto errante é como uma bala perdida. Não sabemos de onde vem ou porque vem, tudo o que sabemos é que fomos atingidos por um. Depois, assim como o impacto de uma bala perdida, um texto errante também nos faz pensar no destino. Porque aconteceu comigo? O que fiz pra receber este castigo? Nem tão castigo assim. A bala mata a matéria, mas liberta o espírito, o texto errante fere o certo, mas livra a mente da repetição. Usando o pontapé de um mau aluno (Rubem Alves), diria que um texto errante, quando lido, é como um grão de areia que entrou na nossa ostra. Ao primeiro contato, parece ter a única e irritante missão de incomodar, mas com o tempo e a reflexão, o que era irritação se transforma em rara pérola. Assim, a não ser que você esteja preparado pra perder sua vaquinha e passar a produzir pérolas, aceite meu conselho: não leia poesia!

(ê)tresser

Hoje fiz crochê.
De linha fina,
bem verdinha em pano branco.
De barbante grosso.
Tranças no nada.
Arrumei as malas,
novos lugares para antigas coisas.
Lugares garantidos para coisas novas.
A beleza apareceu.
Ela bordou, eu não caí.

20 de out de 2006

Meninos, eu vi


I - JUCA PIRAMA
Gonçalves Dias

I
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos – cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.
São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!
As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.
No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? – ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: – de um povo remoto
Descende por certo – dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.
Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: – no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incubem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.
Acerva-se a lenha da vasta fogueira
Entesa-se a corda da embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.
Em tanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar,
II
Em fundos vasos d’alvacenta argila
Ferve o cauim;
Enchem-se as copas, o prazer começa,
Reina o festim.
O prisioneiro, cuja morte anseiam,
Sentado está,
O prisioneiro, que outro sol no ocaso
Jamais verá!
A dura corda, que lhe enlaça o colo,
Mostra-lhe o fim
Da vida escura, que será mais breve
Do que o festim!
Contudo os olhos d’ignóbil pranto
Secos estão;
Mudos os lábios não descerram queixas
Do coração.
Mas um martírio , que encobrir não pode,
Em rugas faz
A mentirosa placidez do rosto
Na fronte audaz!
Que tens, guerreiro?
Que temor te assalta
No passo horrendo?
Honra das tabas que nascer te viram,
Folga morrendo.
Folga morrendo; porque além dos Andes
Revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
Da fria morte.
Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,
Lá murcha e pende:
Somente ao tronco, que devassa os ares,
O raio ofende!
Que foi?
Tupã mandou que ele caísse,
Como viveu;
E o caçador que o avistou prostrado
Esmoreceu!
Que temes, ó guerreiro?
Além dos Andes Revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
Da fria morte.
III
Em larga roda de novéis guerreiros
Ledo caminha o festival Timbira,
A quem do sacrifício cabe as honras,
Na fronte o canitar sacode em ondas,
O enduape na cinta se embalança,
Na destra mão sopesa a iverapeme,
Orgulhoso e pujante.
Ao menor passo
Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra,
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
Como que por feitiço não sabido
Encantadas ali as almas grandes
Dos vencidos Tapuias, inda chorem
Serem glória e brasão d’imigos feros.
"Eis-me aqui", diz ao índio prisioneiro;
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
"As nossas matas devassaste ousado,
"Morrerás morte vil da mão de um forte."
Vem a terreiro o mísero contrário;
Do colo à cinta a muçurana desce:
"Dize-nos quem és, teus feitos canta,
"Ou se mais te apraz, defende-te.
" Começa O índio, que ao redor derrama os olhos,
Com triste voz que os ânimos comove.
IV
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.
Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.
Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimoréis;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes – escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.
E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.
Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.
Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!
O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.
Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossêgo
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego
Qual seja, – dizei!
Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.
Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta?
– Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!
Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro:
Se a vida deploro,
Também sei morrer.
V
Soltai-o! – diz o chefe.
Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
Timbira,
diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
– És livre; parte.
– E voltarei.
– Debalde.
– Sim, voltarei, morto meu pai.
– Não voltes! É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que filho tem, qual chora:
és livre; parte!
– Acaso tu supões que me acobardo,
Que receio morrer!
– És livre; parte!
– Ora não partirei;
quero provar-te
Que um filho dos Tupis vive com honra,
E com honra maior, se acaso o vencem,
Da morte o passo glorioso afronta.
– Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte;
não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes.
Sobresteve o Tupi: – arfando em ondas
O rebater do coração se ouvia
Precípite.
– Do rosto afogueado
Gélidas bagas de suor corriam:
Talvez que o assaltava um pensamento...
Já não... que na enlutada fantasia,
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
Do velho pai a moribunda imagem
Quase bradar-lhe ouvia:
– Ingrato! Ingrato!
Curvado o colo, taciturno e frio.
Espectro d’homem, penetrou no bosque!
VI
– Filho meu, onde estás?
– Ao vosso lado;
Aqui vos trago provisões; tomai-as,
As vossas forças restaurai perdidas,
E a caminho, e já!
– Tardaste muito!
Não era nado o sol, quando partiste,
E frouxo o seu calor já sinto agora!
– Sim demorei-me a divagar sem rumo,
Perdi-me nestas matas intrincadas,
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
Convém partir, e já!
– Que novos males
Nos resta de sofrer?
– que novas dores,
Que outro fado pior Tupã nos guarda?
– As setas da aflição já se esgotaram,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta.
– Mas tu tremes!
– Talvez do afã da caça....
– Oh filho caro! Um quê misterioso aqui me fala,
Aqui no coração; piedosa fraude
Será por certo, que não mentes nunca!
Não conheces temor, e agora temes?
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
E contra o seu querer não valem brios.
Partamos!...
– E com mão trêmula, incerta
Procura o filho, tacteando as trevas
Da sua noite lúgubre e medonha.
Sentindo o acre odor das frescas tintas,
Uma idéia fatal ocorreu-lhe à mente...
Do filho os membros gélidos apalpa,
E a dolorosa maciez das plumas
Conhece estremecendo:
– foge, volta,
Encontra sob as mãos o duro crânio,
Despido então do natural ornato!...
Recua aflito e pávido, cobrindo
Às mãos ambas os olhos fulminados,
Como que teme ainda o triste velho
De ver, não mais cruel, porém mais clara,
Daquele exício grande a imagem viva
Ante os olhos do corpo afigurada.
Não era que a verdade conhecesse
Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
Ele o via; ele o tinha ali presente;
E era de repetir-se a cada instante.
A dor passada, a previsão futura
E o presente tão negro, ali os tinha;
Ali no coração se concentrava,
Era num ponto só, mas era a morte!
– Tu prisioneiro, tu?
– Vós o dissestes.
– Dos índios?
– Sim.
– De que nação?
– Timbiras.
– E a muçurana funeral rompeste,
Dos falsos manitôs quebrastes maça...
– Nada fiz... aqui estou.
– Nada!
– Emudecem;
Curto instante depois prossegue o velho:
– Tu és valente, bem o sei; confessa,
Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!
– Nada fiz; mas souberam da existência
De um pobre velho, que em mim só vivia....
– E depois?...
– Eis-me aqui.
– Fica essa taba?
– Na direção do sol, quando transmonta.
– Longe?
– Não muito.
– Tens razão: partamos.
– E quereis ir?...
– Na direção do acaso.
VII
"Por amor de um triste velho,
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedestes
A vida a um prisioneiro.
Ação tão nobre vos honra,
Nem tão alta cortesia
Vi eu jamais praticada
Entre os Tupis,
– e mas foram
Senhores em gentileza.
"Eu porém nunca vencido,
Nem nos combates por armas,
Nem por nobreza nos atos;
Aqui venho, e o filho trago.
Vós o dizeis prisioneiro,
Seja assim como dizeis;
Mandai vir a lenha, o fogo,
A maça do sacrifício
E a muçurana ligeira:
Em tudo o rito se cumpra!
E quando eu for só na terra,
Certo acharei entre os vossos,
Que tão gentis se revelam,
Alguém que meus passos guie;
Alguém, que vendo o meu peito
Coberto de cicatrizes,
Tomando a vez de meu filho,
De haver-me por se ufane!"
Mas o chefe dos Timbiras,
Os sobrolhos encrespando,
Ao velho Tupi guerreiro
Responde com tôrvo acento:
– Nada farei do que dizes:
É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto. –
Do velho Tupi guerreiro
A surda voz na garganta
Faz ouvir uns sons confusos,
Como os rugidos de um tigre,
Que pouco a pouco se assanha!
VIII
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de via Aimorés.
"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!
"Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.
"Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas com asco e terror!
"Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.
"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."
I
X
Isto dizendo, o miserando velho
A quem Tupã tamanha dor, tal fado
Já nos confins da vida reservada,
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
Da sua noite escura as densas trevas
Palpando.
– Alarma! alarma!
– O velho pára! O grito que escutou é voz do filho,
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
Noutra quadra melhor.
– Alarma! alarma!
– Esse momento só vale a pagar-lhe
Os tão compridos trances, as angústias,
Que o frio coração lhe atormentaram
De guerreiro e de pai: – vale, e de sobra.
Ele que em tanta dor se contivera,
Tomado pelo súbito contraste,
Desfaz-se agora em pranto copioso,
Que o exaurido coração remoça.
A taba se alborota, os golpes descem,
Gritos, imprecações profundas soam,
Emaranhada a multidão braveja,
Revolve-se, enovela-se confusa,
E mais revolta em mor furor se acende.
E os sons dos golpes que incessantes fervem,
Vozes, gemidos, estertor de morte
Vão longe pelas ermas serranias
Da humana tempestade propagando
Quantas vagas de povo enfurecido
Contra um rochedo vivo se quebravam.
Era ele, o Tupi; nem fora justo
Que a fama dos Tupis – o nome, a glória,
Aturado labor de tantos anos,
Derradeiro brasão da raça extinta,
De um jacto e por um só se aniquilasse.
– Basta! Clama o chefe dos Timbiras,
– Basta, guerreiro ilustre!
Assaz lutaste,
E para o sacrifício é mister forças. –
O guerreiro parou, caiu nos braços
Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Com lágrimas de júbilo bradando:
"Este, sim, que é meu filho muito amado!
"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
"Corram livres as lágrimas que choro,
"Estas lágrimas, sim, que não desonram."
X
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: – "Meninos, eu vi!
"Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.
"Eu disse comigo:
Que infâmia d’escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"
Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".

2 de out de 2006

SEM PALAVRAS. QUASE.

"...De acordo com Amorim, economistas internacionais acreditam que Alckmin, candidato pelo PSDB, implantaria uma política fiscal mais afinada com seus ideais e "estaria mais inclinado a cortar impostos e reduzir juros, permitindo assim um maior crescimento econômico".
Para Joel Velasco, "uma eventual vitória de Alckmin ofereceria mais oportunidade para reformas, o choque de gestão do qual ele vem falando é algo que investidores gostam de ouvir".
ChancesNuno Camara, economista-sênior para a América Latina do banco Dresdner Kleinwort, compartilha da surpresa positiva em relação ao desempenho do candidato do PSDB, mas acrescenta que é preciso ver nas próximas semanas se existem chances concretas de que Alckmin venha a superar Lula.
"A vitória dele seria algo bom, mas não sei quão provável seria de ocorrer. Temos de ver as pesquisas nas próximas semanas. Mas seria uma excelente notícia porque ele é alguém mais afinado com os ideais do mercado", afirma..."


http://noticias.terra.com.br/eleicoes2006/interna/0,,OI1169154-EI6652,00.html


SE sobre o Lula é possível comentar algo...frente a ISTOs não há palavras.


MAS a minha esperança quase poliônica me faz insistir.
Ainda há palavras:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu risonho e límpido
À imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada,Brasil !
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida
Teus risonhos lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida","Nossa vida" no teu seio "mais amores".
Ó Pátria amada,Idolatrada
Salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado
E diga o verde-louro desta flâmula
Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada,Brasil !
Hino Nacional Brasileiro
Música: Francisco Manuel da Silva
Letra: Joaquim Osório Duque Estrada

SOBREVIVEMOS ANTES.

NÃO SERÁ DIFERENTE DESTA VEZ.

1 de out de 2006

PASSOU DO PONTO

PASSOU DO PONTO


Li hj em um site: A MAIOR ELEIÇÃO DE TODOS OS TEMPOS.
me perguntei? COOOMO ASSIMMM??? a minha esperança (quase poliônica) me disse que ainda teremos esta aí.
Porque cá entre nós: o Lula ganhar esta eleição é SINTOMÁTICO: nos recusamos a ver a realidade. é a própria piada do marido traído que fica parado na frente do motel se perguntando o que a esposa está fazendo lá dentro com aquele cara barbado.
MILHÕES parados na frente da tv observando o marido dizer: EU NÃO SABIA. Não sabia que era um motel? não sabia que o homem ao lado da esposa no carro não era ele mesmo? não sabia o que?
pqp.
Fui reler isto aqui e pensei: nóóó..eu escrevi a piada do marido traído. SERÁ? (foi um ataque de polionisse)...aí me dei conta: não há marido traído que não saiba que foi traído. ELE sabe. SEMPRE sabe. (ele = o sujeito. pode ser a esposa também heim...rsrs..vamos manter a questão de gênero em dia)
Eu espero que UM DIA (sim, eu sei que a minha esperança é quase poliônica) eles sintam vergonha. E que o povo tome vergonha.

LEGENDA:

POLIONISSE/POLIÔNICA = POLIANISSE/ POLIÂNICA

POLIONE = POLLYANA em uma piada antiga e particular.