5 de set. de 2006









quis ser poeta
virei escriba







Bomberger's CIRQUE DU SOLEIL series

Manoel de Barros.
Aqui a palavra desencontra as fórmulas e as firulas:
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém. (o guardado de águas - 63)
Passado o susto. Vem outro:
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou. (livro sobre nada - 67)
E quando nos apaixonamos e corremos a solicitar direito de posse, Manoel escorrega e avisa:
O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum
Convém se vestir
r
oupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo do carro
Nos primeiros instantes.
Fez bem uma janela aberta
Uma veia aberta.
Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
Enquanto vida houver.
Ninguém é pai de um poema
sem morrer (Arranjos
para assobio - 25)

Poesia não tem dono. Nem prumo. Num rumo. É inutensílio.
Mas tudo se esclarece logo. É que:
Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem. (livro de pré-coisas -59)
Simples assim.


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