Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

17 de fev. de 2012

"O povo é matéria inflamável"

O filme francês "Adeus à Rainha", que abriu o Festival Internacional de Cinema de Berlim, mostrando os últimos dias da rainha Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, tem duas frases antológicas, ao tratar da Revolução francesa – o povo é uma matéria inflamável e o povo não quer só pão quer também o poder.

Filme "Adeus à Rainha" - Foto: Reprodução

Benoit Jacquod, no encontro com a imprensa, reconheceu a coincidência do filme com a situação de fim de ditaduras em países africanos com a Primavera Árabe.

Meteora e o amor proibido entre uma freira e um monge


Por amor a Deus, homens e mulheres isolam-se nos mosteiros e conventos de "Meteora". Mesmo assim, o filme Meteora, na competição em Berlim, mostra que o amor humano e a conjunção carnal são tentações capazes de resistir à água benta, ao incenso e aos cânticos gregorianos. Ícones, incenso, cânticos, velas e mulheres vestidas dos pés à cabeça com longos vestidos cobertos de mantas ou véus, que lembram o chador, pouco faltando para a burca muçulmana, assim é o filme, que mostra o mosteiro masculino e o convento ortodoxo feminino em Tessaly, no alto de montanhas quase inacessíveis a 550 metros de altura.


27 de mar. de 2008

Into the wild

.



wild
terra agreste, deserto, ermo (também wilds). // adj 1 selvagem, agreste, silvestre, bravio. 2 não cultivado ou lavrado, inculto, não domesticado. 3 ermo, solitário. 4 desabitado, despovoado. 5 incivilizado, bárbaro. 6 arredio, assustadiço (pássaro). 7 indômito, irrestrito, desenfreado. 8 desarrumado, desarranjado. 9 turbulento, traquinas, travesso, alegre. 10 imoderado, extravagante, licencioso. 11 enfurecido, furioso, violento, frenético. 12 louco, desvairado. 13 precipitado, impensado, irrefletido. 14 fantástico, extraordinário. 15 Coloq. ansioso. 16 Coloq. longe do alvo. 17 tempestuoso. 18 perturbado (olhos). // adv 1 a esmo, à toa. 2 sem pensar. 3 descontroladamente. // wildly adv 1 de modo selvagem, agreste ou silvestre. 2 solitariamente. 3 desertamente. 4 de modo inculto, sem cultivo. 5 de modo incivilizado. 6 desenfreadamente, indomitamente. 7 turbulentamente, alegremente. 8 imoderadamente, licenciosamente. 9 furiosamente, freneticamente. 10 loucamente. 11 precipitadamente, impensadamente. 12 fantasticamente. 13 ansiosamente. 14 tempestuosamente. wild animals animais selvagens (ou silvestres). it gives me the wilds isso me deixa furioso, eu fico louco da vida. in wild spirits com disposição para brincar. a wild storm temporal furioso, tremendo. they were wild to see me eles estavam loucos para me ver. they were wild about books eles eram loucos por livros, gostavam demais de livros. don't drive me wild! não me desespere. she was wild with delight ela estava fora de si de alegria. to run wild 1 asselvajar. 2 perder(-se) por falta de cultura. 3 crescer sem instrução e educação. they shot wild atiraram a esmo. they talked wild eles falaram bobagens, falaram sem pensar. he is wildly excited ele está sumamente revoltado.

foi a melhor definição do filme que encontrei.

7 de jan. de 2008

Meu nome não é Johnny




Filme imperdível. Tanto quanto o Bope coloca em questão o modo como cada um tem se virado no Brasil que conhecemos.... mas não só isto ... principalmente, na Vida em que chegamos.
"o verdadeiro lugar de nascimento é onde lançamos o primeiro olhar inteligente sobre nós mesmos" .... não sei se a citação está rigorosamente literal, mas foi como ficou gravado em mim o texto da Marguerite Yourcenar utilizado no filme e, principalmente, as cenas em que João passa o Natal em casa.
Para quem me conhece sabe do meu amor ao Projeto de Extensão lá na Penitenciária de Ipaba, bem como na aposta que faço na Clínica como um ponto de recomeço, de partida. Se é para lugares nunca dante navegados ou se para outros já há muito desejados e (des) conhecidos, cada um descobrirá.
Este fim de semana assisti um filme do Woody Allen, Crimes e pecadinhos (algo assim). Saí enfastiada. Que saco aquele cara sem coragem para correr atrás do que o faça feliz e que fica ali naquele resmungo todo, se corroendo de inveja de quem deu a cara a tapa.
Ontem quando saí do cinema pensei: putz! É um Bravo.
Reconheci no filme tanta gente que tenho o prazer de ter encontrado e que vai para a vida assim mesmo, sem medo de ser feliz porque se nada está garantido, o fracasso também não.
Então que venha o sucesso. Para o filme, para o João Guilherme Estrella e para todos nós que tivermos a coragem de não (só) ficarmos debaixo da cama chorando.

PS: O João Guilherme Estrella tem um blog:

http://www.meunomenaoejohnnyfilme.com.br/blogjoao/

22 de mar. de 2007

escorregão das verdadezinhas






DOGVILLE: A CIDADE DO CÃO
Filipe Pereirinha


Sobre este filme, o último de Lars Von Trier, tem sido dito e escrito um pouco de tudo. No essencial, as críticas tendem a aproximar-se de dois extremos: o amor incondicional ou o ódio sem reservas. Há aqueles que elogiam o arrojo formal que passa por uma aglutinação de géneros (teatro, literatura, cinema) e há, igualmente, aqueles que consideram que tudo não passa de um embuste. Seja como for, e sem entrar na polémica, uma coisa é certa: o filme está aí e não nos deixa indiferentes

[1].
Pelo menos em três aspectos, este filme não é o que parece. Ele parece ser, antes de mais, um filme sobre a América dos anos trinta (a época da grande depressão económica), mas é, em vez disso, um filme sobre a nossa época, isto é, sobre o tempo em que a grande depressão já não é apenas económica, mas ameaça alastrar a toda a nossa vida (o que levou alguns a dizer que esta é a doença do século XXI). O filme retrata-nos sob a forma de uma população em que o desejo dorme e o gozo da depressão é o que comanda a nossa pequena existência.
Além disso, ele parece constituir um retorno às grandes parábolas mítico-religiosas fundadoras da civilização ocidental, mas, em vez disso, ele é uma paródia (uma subversão) dessas parábolas e uma alegoria do nosso modo de vida actual. É por isso que, exemplificando, Moisés já não é o que traz as tábuas da lei do monte Sinai, mas o nome de um cão (Moses) que assinala a chegada da des-graça (Graça) àquele lugarejo das montanhas rochosas onde se passa toda a acção do filme.
[2]
Finalmente, ele parece ter como protagonistas a Luz da razão (Tom Edison) e a Graça salvadora (Grace), mas, na verdade, o real protagonista deste filme é Moses, o cão de Dogville. É ele que antecede e anuncia a vinda da Graça (Grace) e o que sucede à extinção da luz (Tom Edison). Anunciado desde o título (Dog-ville), ele marca, por assim dizer, a cadência deste filme. No final, quando Moses, o único que sobrevive à matança e ao extermínio, ganha finalmente corpo (pois até aí ele permanecera invisível, apesar de ser nomeado e de se ouvir o seu latido), o espectador não pode deixar de se aperceber de que aquilo que nos ladra e nos arreganha os dentes é a verdade finalmente desvelada: o cão pulsional (ou o gozo) que acorda e se mostra quando a civilização, e tudo o que dela faz parte, são virados do avesso.
Há um momento, já perto do final, em que o pai de Grace (de quem ela fugira, vindo cair e entregar-se nas mãos daquele “mundo cão”, que a explorou até ao abjecto) lhe propõe, como forma de castigar e assustar o povo de Dogville, que se mate um cão. Trata-se claramente de uma paródia do famigerado sacrifício que o Deus do Antigo Testamento exige a Abraão, como prova suprema de amor; isto é, que sacrifique o seu bem mais precioso, matando o seu único filho. O que parece estar fundamentalmente em causa neste episódio bíblico, para além do dramatismo angustiante da situação, que alguns filósofos não deixaram de comentar (por exemplo Kiekegaard, aliás compatriota de Lars Von Trier), é a instauração da lei enquanto simbólica. Na verdade, quando se prepara, obedecendo cegamente à voz de um deus obscuro (à maneira dos antigos deuses) para matar o seu próprio filho, um anjo vem deter-lhe o gesto, mostrando-lhe, em troca, o animal (um carneiro) que será sacrificado no seu lugar. De ora em diante, este Deus já não exige mais o sacrifício real de vidas humanas, mas antes um sacrifício simbólico por amor e em nome-do-pai.
Porém, esta tentativa de recobrir o real pelo simbólico deixa restos. A começar pelo próprio texto bíblico, onde muitos episódios (parodiados igualmente neste filme) parecem denotar mais o gozo real da vingança de um deus que ainda não aprendeu a perdoar do que a lei simbólica do pai. É um pai vingador deste tipo (o chefe de um bando de gansters, versão moderna da horda primitiva de que falava Freud) que, no filme, diz “mata-se um cão” (dog). Não se trata, por isso, apenas de uma metáfora (no sentido em que se pouparia toda uma população, substituindo-lhe o sacrifício de um animal, à maneira do episódio bíblico), mas antes de algo mais real, perturbador e simultaneamente mais ambíguo: é que, na verdade, o “cão” a que se alude não é apenas o animal, mas pode ser qualquer uma daquelas personagens que acolheram Grace, quando esta fugia do pai para vir encontrar o pior. Na época do Outro que não existe (Lacan) e em que o lugar tradicionalmente ocupado por Deus (God) ficou vazio, o que vem no seu lugar (eis o que o filme mostra por meio de uma torção topólogica) é o Cão (Dog), o avesso de Deus. Como este, o cão de Dogville é omnipresente, mesmo se permanece invisível a maior parte do tempo.
É o cão que ladra quando Grace chega à sua cidade: Dog-ville. É um “mundo cão” que a acolhe Grace e lhe faz pagar caro este acolhimento, impondo-lhe literalmente uma “vida de cão”. A tudo isso, ela perece responder com amor e abnegação. Tal como responderam as “mulheres-vítima” de filmes anteriores do autor (por exemplo, Breaking the Waves e Dancer in the Dark). Todas estas mulheres parecem ter um percurso e uma função crística: deixando-se explorar por amor, elas realizam uma espécie de via sacra até…à redenção.
Só que, em vez da cruz redentora, o que os “cães” de Dogville impõem à Graça (literalmente: aquilo que lhes foi dado de graça) é uma “coleira de cão”
[3]. E é talvez aí que começa a viragem. Na verdade, para ser franco, esta “viragem” já está indiciada desde o princípio, quando Grace aparece a desculpar-se pelo facto de ter roubado um “osso” ao cão. Há aí um indício claro do que vai revelar-se mais tarde quando Grace, mostrando os dentes, como fez outrora Medeia[4], mostrar que também tem um “osso” canino. É no momento crucial em que o pai (revelando-se, finalmente, menos assustador do que seria suposto, condescendente até) lhe propõe que se mate um cão em vez de todos os “cães”. Grace, servindo-se embora de dois significantes paternos (a arrogância e o poder), vai muito para além daquilo que o pai lhe propõe e decide tomar nas suas próprias mãos a execução de Tom Edison, fazendo-o morrer “como um cão”[5]. É nesta medida que Grace nos revela uma outra faceta das “mulheres” de Lars Von Trier, menos óbvia em filmes anteriores. Mudando de uma posição de “vítima” para uma posição de “carrasco” e “justiceiro, ela mostra que, sob a aparência do amor ou do poder, o que se esconde, afinal, são diferentes posições de gozo.
Não deixei de pensar, ao ver uma das últimas imagens do filme (um cão que ladra e arreganha os dentes), no lugar onde os “cínicos” (que se auto-denominavam “cães”) costumavam ensinar. Era o lugar do “Cão ágil”. O que sobrevive a todas as personagens do filme, nomeadamente àquele filósofo e escritor falhado
[6] (Tom Edison), não é, afinal o “cinismo” do próprio realizador ao propor-nos este objecto estranho[7]? Resta acrescentar que este filme faz parte de uma trilogia “americana”. Veremos, então, se se trata simplesmente de uma atitude perversa (como alguns têm sugerido a propósito deste e de outros filmes de Lars Von Trier) ou de uma posição ética. Aliás, na origem, o “cinismo” grego era, antes de mais, uma posição ética.








[1] Como reconhecia acertadamente João Peneda no seu oportuno e inteligente texto sobre o filme (http://usuarios.lycos.es/acfportugal/acfportugal).
[2] Curiosamente, talvez para mostrar que aquela América é uma outra forma de dizer “aldeia global”, nenhuma cena é gravada na América, mas antes na Suécia.
[3] Uma das coisas que Nicole Kidman (Grace) parece não ter suportado muito bem.
[4] Da filmografia de Lars Von Trier consta precisamente este título (1988).
[5] Tal como se lê no final do “Processo “ de Kafka: “Morreu como um cão”. É mais uma paródia.
[6] Com que, de alguma forma, Lars Von Trier se identifica, ao dizer, numa entrevista, que gostaria no fundo de ser como Grace, mas era como Tom.
[7] Strange é uma das palavras mais usadas por Nicole Kidman durante as filmagens.