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18 de jun. de 2008

Maria Gabriela Llansol


Espaço Llansol

Carta de Princípios

1. O Espaço Llansol não é apenas um lugar físico, mas também o lugar real, visível e invisível, disseminado pelo Texto de Maria Gabriela Llansol.

2. O Espaço Llansol é o lugar onde cada ser se desenvolve para o seu fim específico, espaço comum do encontro inesperado do diverso e do contrato que une todos os seres com a sua pujança própria, sem hierarquias.


3. O Espaço Llansol é o lugar do princípio de bondade e do eterno retorno do mútuo, onde não há comunidade, não há grupo, não há clube, não há seita, não há «nós»: apenas semelhantes na diferença.


4. O Espaço Llansol é o lugar onde não se pergunta «Quem sou eu?» (a pergunta do escravo), mas «Quem/o quê me chama?» (a pergunta do homem livre).

5. O Espaço Llansol é o lugar onde não há resignação nem morte, lugar de vida sob o signo dos afectos, no seu triplo registo: o Belo, o Pensamento e o Vivo.


6. O Espaço Llansol é o lugar onde escrever é o duplo de viver, e vice-versa.


7. O Espaço Llansol é o lugar onde se busca o dom poético (o potencial de beleza à espera de ser descoberto em todas as coisas e nas suas relações) e se exerce a liberdade de consciência (que permite a cada um reconhecer-se direito e ser inteiro).


8. O Espaço Llansol é o lugar da língua sem impostura.

9. O Espaço Llansol é um lugar de fascínio (o que está do lado do luminoso), não de sedução (o dispositivo de submissão de todas as vozes a uma única voz).


10. O Espaço Llansol é o lugar onde aquilo que o Texto tece advirá ao homem como destino. Esse destino é o de um humano-mais-humano, o de uma mais-paisagem do humano.


11. O Espaço Llansol é o lugar onde o homem será, arriscando a sua identidade por um desejo de metamorfose. A esse lugar o Texto chama «espaço edénico» – não o mítico, das origens, mas o que é criado no meio da coisa, não fixo, mas elaborável por cada um de nós.


12. O Espaço Llansol é o jardim que o pensamento permite.




7 de dez. de 2007

A Academia também suas poesias.

A Linguagem é sempre descontínua em relação à realidade, não é uma entidade geradora de signficados definitivos. Além disso, o sujeito que a produz é um efeito de linguagem, uma REVERBERAÇÃO, um precipitado na ordem do discurso, do qual não é mestre. Nas palavras de Jacques Lacan, "enquanto é linguagem, nunca há univocidade do símbolo ... a linguagem não é feita para designar coisas ... há um logro estrutural da linguagem humana, neste logro está fundada a verifcação de toda a verdade".

LONGO, Leila. Linguagem e Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

11 de nov. de 2007

.

vez em quando fico prisioneira de palavras incomensuráveis.
restam as letras imagináveis.

(Liliane M. A. Silva)

8 de nov. de 2007

sinhazinha

pra pensar sei não.
ficar sinhazinha,
a medir o desvão.
insisto.
apenas pra pensar em vão.


(Liliane M. A. Silva)

24 de out. de 2007

Pássaro no papiro



giz no papel,
pássaro no céu.
agouro na alma.

abismo sob os pés,
tudo resolvido.
rodopio do horror.


o corvo.


cheiro de sangue na boca
poeira do fundo nos olhos
a morte na alma.


o que restou
foi um outro desejo.
É que o corvo tinha alma de condor.


(Liliane M. A. Silva)

30 de ago. de 2007

Lirear


Lá se vai um tempo

Do tempo só de projetos.

Sonhos envoltos em nuvens,

Não nus, que assim era nada demais.

A palavra tatuou desde o início o ponto de passagem entre o vivido e o a viver.

Mas não resolvia todos os passos.

Foi preciso cada dia

Foi preciso todo dia

Voltar e nascer

Voltar e fazer

Voltar, mesmo sem crer,

E então renascer.

Deixar o vento levar,

A primavera chegar.

Enfim lirear.

Tornear em verbo a beleza,

Tornar a reverberar a beleza

29 de jun. de 2007

ó eu que aqui cheguei

com (o) a palavra.
não quero saber.
chego aqui pobre e ignorante
cobra corante,
ondeando entreletras
me desejo pequena
sem eira nem penas.
perder a senha,
ser louca rodopiando.
descerrar cortinas
fazer nevoar.
fazer de conta que invento,
que canto,
que falo.
jeito in próprio de deixar nanar
deixar nadar,
deixar o nada voar,
virar cobrapássaro
desparecer
desaparecer.
renascer
menos Lilith,
mais lua.
deixar para lá
deixar lá
o que não for daqui
guardar só que foi bom
como nem na palavra
(letra que sempre escapa)
é possível.
tornar vivificador
estar na beira
escapar do pulo
deixar cair a morte
deixar-se cair na vida

12 de jun. de 2007

manoelando

me perguntam sobre o lugar,
sobre a função.
respondo com manoel:
se há, é a de escovar.
porque mesmo no osso
pode a morte morrer
e um resto de vida ainda habitar.
mas se nestes meandros ninguém se aventurar
não há, de fato, como alguém retornar. retomar.
garantias? não as há.
esperança. nisto sim, se sustentar.
e neste, bendito, saber apostar.

5 de jun. de 2007

Homotesia

e se querer era poder...
então não queria?
ou pode-se mais do que se quer?
ou o que pode é um e outro esbarrarem no tempo? e aí tudo pode!
é uma tangência ou um atravessamento?
este encontro...fortuito? ou pré-destinado?
homotesia gerada na pulsão? fortuita ou pré-destinada?
(HOMOTETIA NA RETA
O termo homotetia segundo o Novo Dicionário Brasileiro de Melhoramentos, 7ª edição, é também conhecido como homotesia e definido como "relação entre duas séries de pontos, tal que os de cada uma estão dois a dois em linha reta com um centro comum e separados destes por distancias de razão constante".
mas tem centro?
dizem que não.
se não tem centro ...tem homotesia?
vão dizer que não? porque se não tiver como pode o poder e o querer trombarem?
fortuitamente ou pré-destinadamente?
ou mesmo tangenciarem, se não for 0 caso de se atravessarem.
e se tiver? centro, quero dizer.
alguém aí tem o endereço?
será que é lá o LÁ onde todo mundo parece saber o que é?
vai lá saber!!!!
vai ver que é LÁ que o querer e o poder fazem homotesia.
e se querer era poder...
então não queria?
ou pode-se mais do que se quer?
sei lá.

22 de mar. de 2007

escorregão das verdadezinhas






DOGVILLE: A CIDADE DO CÃO
Filipe Pereirinha


Sobre este filme, o último de Lars Von Trier, tem sido dito e escrito um pouco de tudo. No essencial, as críticas tendem a aproximar-se de dois extremos: o amor incondicional ou o ódio sem reservas. Há aqueles que elogiam o arrojo formal que passa por uma aglutinação de géneros (teatro, literatura, cinema) e há, igualmente, aqueles que consideram que tudo não passa de um embuste. Seja como for, e sem entrar na polémica, uma coisa é certa: o filme está aí e não nos deixa indiferentes

[1].
Pelo menos em três aspectos, este filme não é o que parece. Ele parece ser, antes de mais, um filme sobre a América dos anos trinta (a época da grande depressão económica), mas é, em vez disso, um filme sobre a nossa época, isto é, sobre o tempo em que a grande depressão já não é apenas económica, mas ameaça alastrar a toda a nossa vida (o que levou alguns a dizer que esta é a doença do século XXI). O filme retrata-nos sob a forma de uma população em que o desejo dorme e o gozo da depressão é o que comanda a nossa pequena existência.
Além disso, ele parece constituir um retorno às grandes parábolas mítico-religiosas fundadoras da civilização ocidental, mas, em vez disso, ele é uma paródia (uma subversão) dessas parábolas e uma alegoria do nosso modo de vida actual. É por isso que, exemplificando, Moisés já não é o que traz as tábuas da lei do monte Sinai, mas o nome de um cão (Moses) que assinala a chegada da des-graça (Graça) àquele lugarejo das montanhas rochosas onde se passa toda a acção do filme.
[2]
Finalmente, ele parece ter como protagonistas a Luz da razão (Tom Edison) e a Graça salvadora (Grace), mas, na verdade, o real protagonista deste filme é Moses, o cão de Dogville. É ele que antecede e anuncia a vinda da Graça (Grace) e o que sucede à extinção da luz (Tom Edison). Anunciado desde o título (Dog-ville), ele marca, por assim dizer, a cadência deste filme. No final, quando Moses, o único que sobrevive à matança e ao extermínio, ganha finalmente corpo (pois até aí ele permanecera invisível, apesar de ser nomeado e de se ouvir o seu latido), o espectador não pode deixar de se aperceber de que aquilo que nos ladra e nos arreganha os dentes é a verdade finalmente desvelada: o cão pulsional (ou o gozo) que acorda e se mostra quando a civilização, e tudo o que dela faz parte, são virados do avesso.
Há um momento, já perto do final, em que o pai de Grace (de quem ela fugira, vindo cair e entregar-se nas mãos daquele “mundo cão”, que a explorou até ao abjecto) lhe propõe, como forma de castigar e assustar o povo de Dogville, que se mate um cão. Trata-se claramente de uma paródia do famigerado sacrifício que o Deus do Antigo Testamento exige a Abraão, como prova suprema de amor; isto é, que sacrifique o seu bem mais precioso, matando o seu único filho. O que parece estar fundamentalmente em causa neste episódio bíblico, para além do dramatismo angustiante da situação, que alguns filósofos não deixaram de comentar (por exemplo Kiekegaard, aliás compatriota de Lars Von Trier), é a instauração da lei enquanto simbólica. Na verdade, quando se prepara, obedecendo cegamente à voz de um deus obscuro (à maneira dos antigos deuses) para matar o seu próprio filho, um anjo vem deter-lhe o gesto, mostrando-lhe, em troca, o animal (um carneiro) que será sacrificado no seu lugar. De ora em diante, este Deus já não exige mais o sacrifício real de vidas humanas, mas antes um sacrifício simbólico por amor e em nome-do-pai.
Porém, esta tentativa de recobrir o real pelo simbólico deixa restos. A começar pelo próprio texto bíblico, onde muitos episódios (parodiados igualmente neste filme) parecem denotar mais o gozo real da vingança de um deus que ainda não aprendeu a perdoar do que a lei simbólica do pai. É um pai vingador deste tipo (o chefe de um bando de gansters, versão moderna da horda primitiva de que falava Freud) que, no filme, diz “mata-se um cão” (dog). Não se trata, por isso, apenas de uma metáfora (no sentido em que se pouparia toda uma população, substituindo-lhe o sacrifício de um animal, à maneira do episódio bíblico), mas antes de algo mais real, perturbador e simultaneamente mais ambíguo: é que, na verdade, o “cão” a que se alude não é apenas o animal, mas pode ser qualquer uma daquelas personagens que acolheram Grace, quando esta fugia do pai para vir encontrar o pior. Na época do Outro que não existe (Lacan) e em que o lugar tradicionalmente ocupado por Deus (God) ficou vazio, o que vem no seu lugar (eis o que o filme mostra por meio de uma torção topólogica) é o Cão (Dog), o avesso de Deus. Como este, o cão de Dogville é omnipresente, mesmo se permanece invisível a maior parte do tempo.
É o cão que ladra quando Grace chega à sua cidade: Dog-ville. É um “mundo cão” que a acolhe Grace e lhe faz pagar caro este acolhimento, impondo-lhe literalmente uma “vida de cão”. A tudo isso, ela perece responder com amor e abnegação. Tal como responderam as “mulheres-vítima” de filmes anteriores do autor (por exemplo, Breaking the Waves e Dancer in the Dark). Todas estas mulheres parecem ter um percurso e uma função crística: deixando-se explorar por amor, elas realizam uma espécie de via sacra até…à redenção.
Só que, em vez da cruz redentora, o que os “cães” de Dogville impõem à Graça (literalmente: aquilo que lhes foi dado de graça) é uma “coleira de cão”
[3]. E é talvez aí que começa a viragem. Na verdade, para ser franco, esta “viragem” já está indiciada desde o princípio, quando Grace aparece a desculpar-se pelo facto de ter roubado um “osso” ao cão. Há aí um indício claro do que vai revelar-se mais tarde quando Grace, mostrando os dentes, como fez outrora Medeia[4], mostrar que também tem um “osso” canino. É no momento crucial em que o pai (revelando-se, finalmente, menos assustador do que seria suposto, condescendente até) lhe propõe que se mate um cão em vez de todos os “cães”. Grace, servindo-se embora de dois significantes paternos (a arrogância e o poder), vai muito para além daquilo que o pai lhe propõe e decide tomar nas suas próprias mãos a execução de Tom Edison, fazendo-o morrer “como um cão”[5]. É nesta medida que Grace nos revela uma outra faceta das “mulheres” de Lars Von Trier, menos óbvia em filmes anteriores. Mudando de uma posição de “vítima” para uma posição de “carrasco” e “justiceiro, ela mostra que, sob a aparência do amor ou do poder, o que se esconde, afinal, são diferentes posições de gozo.
Não deixei de pensar, ao ver uma das últimas imagens do filme (um cão que ladra e arreganha os dentes), no lugar onde os “cínicos” (que se auto-denominavam “cães”) costumavam ensinar. Era o lugar do “Cão ágil”. O que sobrevive a todas as personagens do filme, nomeadamente àquele filósofo e escritor falhado
[6] (Tom Edison), não é, afinal o “cinismo” do próprio realizador ao propor-nos este objecto estranho[7]? Resta acrescentar que este filme faz parte de uma trilogia “americana”. Veremos, então, se se trata simplesmente de uma atitude perversa (como alguns têm sugerido a propósito deste e de outros filmes de Lars Von Trier) ou de uma posição ética. Aliás, na origem, o “cinismo” grego era, antes de mais, uma posição ética.








[1] Como reconhecia acertadamente João Peneda no seu oportuno e inteligente texto sobre o filme (http://usuarios.lycos.es/acfportugal/acfportugal).
[2] Curiosamente, talvez para mostrar que aquela América é uma outra forma de dizer “aldeia global”, nenhuma cena é gravada na América, mas antes na Suécia.
[3] Uma das coisas que Nicole Kidman (Grace) parece não ter suportado muito bem.
[4] Da filmografia de Lars Von Trier consta precisamente este título (1988).
[5] Tal como se lê no final do “Processo “ de Kafka: “Morreu como um cão”. É mais uma paródia.
[6] Com que, de alguma forma, Lars Von Trier se identifica, ao dizer, numa entrevista, que gostaria no fundo de ser como Grace, mas era como Tom.
[7] Strange é uma das palavras mais usadas por Nicole Kidman durante as filmagens.

4 de dez. de 2006

Nada ao nada?



sobre que não se pode dizer melhor silenciar.
ora direis!!!
melhor: ir às estrelas!
melhor: sobre o que está traduzido nem reparar.
melhor: no que silencia apostar.
melhor: a nada pré-historiar. basta depois contar ao tear.
melhor: ao não poder dizer re-inventar.
pulular de sentidos.

31 de out. de 2006

gozador




para que serve o gozo?
o gozo não serve.
nós o servimos, nos servimos.
somos gozados.

24 de out. de 2006

Será?


salvador dali - A metamorfose de Narciso
Algo de mentira.
Algo de verdade?
quando?
quanto?
sei lá.