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13 de fev. de 2012

Cartas não enviadas



É preciso sustentar que a palavra circule.
Pura psicanálise?
Pura poesia e delicadeza humana.
Um lugar para escrever:

". . . Tem sempre uma carta, ou um email, que é preciso ser escrito, mas não deve ser enviado . . .

Não há nenhuma forma de identificação do conteúdo enviado. Todas as cartas são 100% anônimas."

Algumas vezes é suficiente que a carta seja escrita. Que seja possível lavrar em letra o que já ia abismando, por demais, a alma.

10 de mai. de 2009

Pequenas Mãos

Pequenas mãos
(Adriana Oliveira)

Pequenas mãos são feitas de sonho e temor
Mãos pequeninas são para pequenos acenos
Para chuva de criança
Feita com tilintar de dedos

Nas mãos pequeninas cabem compaixão e medo
Se unem as pequenas mãos
Numa prece miúda
A pedir que o mundo não machuque
Não machuque ninguém

Breve tormenta, constante garoa
Qual a maior resistência?
Mãos pequeninas sobrevivem a ferimentos
Constroem, destroem

Outrora, foram as mãos dos
Meninos a modelar bocas de fuzis
Dedinhos inocentes e preciosos.

As mãos dos pequenos seguraram a dor da guerra.

Mãos pequenas podem produzir fogo ou artefatos delicados.
Mãos como as do cantor Victor Jará eram diminutas estendidas no chão,
Diante à desumanidade de calá-las
Essas pequenas mãos cantaram e cantam o provo até hoje.

Mãos pequenas seguram a história
Parecem ter sempre amarrada ao dedo mínimo uma rabiola de esperança.

Pequena música
Pequeno aceno
Pequeno movimento
Mistura-se na imensidão da totalidade
Janela aberta pequenina
A permitir entrar somente o pásssaro
Do canto mais profundo do mundo

Sangüíneas
Perduráveis

Mãos pequenas quebram-se fácil
Têm surpreendente recuperação
Pequenas mãos medem pouco
Por vezes calculam menos
Enroscam-se em fios
A encontrar mãos enormes
Carregam fardos
De outra, não suportam o peso da bandeira
Mas tem medidas precisas para agarrar a haste
São delicadas para costurar cores
Desperta e ágil a tingir o vermelho
Palmas pequeninas na canção da multidão
Ligeiras e providenciais no tumulto


Mãos pequeninas apertam mãos ásperas
como quem entende a história do mundo
Escrevem, porque a caneta cabe perfeito
Pequenas mãos colorem delicados detalhes
e propagam as imagens mais intensas
guardadas no fundo dos olhos

Chama pequenina
Pequenina gana
Beatifica essas mãozinhas
Para que elas segurem minha alma.

28 de fev. de 2009

Binho Santos

GÊNESIS
(Binho Santos)


Existe a força.
Existe a necessidade.

Existe o medo que encoraja,
a coragem que arrefece.

(Tudo o que existe
avoluma-se no Nada)

E existe aquilo que nomeia,
o que mais a ação não pode:
água grossa e atual
nas letras do engano,
nas formas da fuga,
nas curvas das cruzes...

E existe o amor
e a dúvida...
E existe a dor
e a dádiva...

E existe aquilo que nomeia
o amor e a dúvida
e a dor e a dádiva...

A vida ... existe a vida,
aquilo que dá nome à vida:
o Fato, o Fado, o Fardo ... o Sonho...

18 de jun. de 2008

Maria Gabriela Llansol


Espaço Llansol

Carta de Princípios

1. O Espaço Llansol não é apenas um lugar físico, mas também o lugar real, visível e invisível, disseminado pelo Texto de Maria Gabriela Llansol.

2. O Espaço Llansol é o lugar onde cada ser se desenvolve para o seu fim específico, espaço comum do encontro inesperado do diverso e do contrato que une todos os seres com a sua pujança própria, sem hierarquias.


3. O Espaço Llansol é o lugar do princípio de bondade e do eterno retorno do mútuo, onde não há comunidade, não há grupo, não há clube, não há seita, não há «nós»: apenas semelhantes na diferença.


4. O Espaço Llansol é o lugar onde não se pergunta «Quem sou eu?» (a pergunta do escravo), mas «Quem/o quê me chama?» (a pergunta do homem livre).

5. O Espaço Llansol é o lugar onde não há resignação nem morte, lugar de vida sob o signo dos afectos, no seu triplo registo: o Belo, o Pensamento e o Vivo.


6. O Espaço Llansol é o lugar onde escrever é o duplo de viver, e vice-versa.


7. O Espaço Llansol é o lugar onde se busca o dom poético (o potencial de beleza à espera de ser descoberto em todas as coisas e nas suas relações) e se exerce a liberdade de consciência (que permite a cada um reconhecer-se direito e ser inteiro).


8. O Espaço Llansol é o lugar da língua sem impostura.

9. O Espaço Llansol é um lugar de fascínio (o que está do lado do luminoso), não de sedução (o dispositivo de submissão de todas as vozes a uma única voz).


10. O Espaço Llansol é o lugar onde aquilo que o Texto tece advirá ao homem como destino. Esse destino é o de um humano-mais-humano, o de uma mais-paisagem do humano.


11. O Espaço Llansol é o lugar onde o homem será, arriscando a sua identidade por um desejo de metamorfose. A esse lugar o Texto chama «espaço edénico» – não o mítico, das origens, mas o que é criado no meio da coisa, não fixo, mas elaborável por cada um de nós.


12. O Espaço Llansol é o jardim que o pensamento permite.




7 de dez. de 2007

A Academia também suas poesias.

A Linguagem é sempre descontínua em relação à realidade, não é uma entidade geradora de signficados definitivos. Além disso, o sujeito que a produz é um efeito de linguagem, uma REVERBERAÇÃO, um precipitado na ordem do discurso, do qual não é mestre. Nas palavras de Jacques Lacan, "enquanto é linguagem, nunca há univocidade do símbolo ... a linguagem não é feita para designar coisas ... há um logro estrutural da linguagem humana, neste logro está fundada a verifcação de toda a verdade".

LONGO, Leila. Linguagem e Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

13 de nov. de 2007

a-Finado

Dia del sol em dia que já foi só de chuva.
Beira do caminho.
Estrada real.
Passarim ficou escondido,
do rádio que toca funk.
Tanto alarido, tanto ruído.
Só para disfarçar a falta de graça.
Também pode ser
para escapar de tão simples Graça.
É que o dia já vai bonito, calmo, bom.
E quem dá conta de tanto?
É preciso disfarçar que se é feliz.
Gonzaguinha avisou.
A gente cantou.
Mas sei lá se adiantou.
Música que não nasce da alma
Poesia que não escalavra lembranças
Só faz fazer ruído, alarido.
Sair da rima, desafinar.
Ouvir piriguete.

(Liliane M. A. Silva)

4 de dez. de 2006

Nada ao nada?



sobre que não se pode dizer melhor silenciar.
ora direis!!!
melhor: ir às estrelas!
melhor: sobre o que está traduzido nem reparar.
melhor: no que silencia apostar.
melhor: a nada pré-historiar. basta depois contar ao tear.
melhor: ao não poder dizer re-inventar.
pulular de sentidos.